“Oito Mulheres e um Segredo” resgata franquia de filmes de assalto dentro de universo feminino

Em tempos nos quais Hollywood encontra-se dominada por grandes blockbusters de orçamento milionário (e metas de lucro ainda maiores) e filmes minúsculos que são criados para render ao máximo nas porcentagens feitas entre os gastos e os ganhos, é fácil para que um projeto como “Oito Mulheres e um Segredo” soe como uma verdadeira anomalia dentro do atual sistema de estúdio estadunidense. Apesar de cumprir com a ideia de universo cinematográfico recém-adquirida pelo circuito ao servir de derivado “feminino” à franquia dirigida por Steven Soderbergh nos anos 2000 (esta por sua vez baseada na comédia homônima de Lewis Milestone com Frank Sinatra e Dean Martin), o longa é também uma obra de médio orçamento baseada pura e simplesmente no “star power” agregado de seu elenco de atrizes, características estas que compõem hoje um dos tipos mais raros de produto do cenário da indústria cinematográfica do país.

Ao mesmo tempo, porém, a produção comandada por Gary Ross também parte de uma premissa que é resultado de toda uma conjuntura do cenário ao qual pertente, em especial por conta da inversão de gênero que no fundo serve como grande mote de existência da obra. Depois de três capítulos centrados no ladrão profissional Danny Ocean (George Clooney) e seus roubos engenhosos feitos em parceria com seus dez, onze e doze homens, agora é a vez da irmã do antigo protagonista, Debbie (Sandra Bullock), assumir as rédeas da série e praticar seu próprio assalto ambicioso junto de um grupo de mulheres que fazem do crime uma grande arte. Como o perfil das integrantes escolhidas a dedo pela personagem e sua amiga Lou (Cate Blanchett) bem sugere, é deste alinhamento entre o novo e o velho que o filme então passa a funcionar.

Sandra Bullock no set

Esta mistura não surge de forma direta no longa, mas acontece com base em uma reconfiguração involuntária de elementos característicos da série na narrativa. Roteirista nascido e tornado mão-de-obra típica de Hollywood, Ross em nenhum momento procura escapar do convencional e toca o projeto em campos confortáveis – quase toda a história escrita por ele e Olivia Milch é baseado no parentesco de Debbie com o agora falecido Frank, seja no “ramo da família” ou na premissa do roubo com segundas intenções – mas ao mesmo tempo esta sua predisposição em repetir grande parte das estruturas do remake de Soderbergh acaba por render um conjunto de apropriações do imaginário dos filmes pela ótica de um universo pretensamente feminino e enxergado como fútil que ajuda o filme a se equilibrar sozinho.

A fala de Debbie a Lou sobre as mulheres serem “invisíveis à sociedade” e como isso é vantajoso a ela talvez seja o momento da produção que mais escancare este viés do derivado ao espectador, mas é no cenário luxuoso da moda e das festas que Ross de fato encontra voz própria para desenvolver este lado do projeto. Por mais que tente se parecer aos ambientes grandiosos dos cassinos da trilogia (uma imitação bem barata, considerando o nível de comprometimento dos dois cineastas envolvidos com a fotografia digital), os lugares percorridos por “Oito Mulheres e um Segredo” no fundo partem de uma lógica de aparências pelo glamour que é muito distinta em relação ao capitalismo selvagem do qual Soderbergh queria pelo menos triunfar sobre em “Onze Homens e um Segredo”. O fato do golpe do grupo ser armado no famoso Met Gala, neste sentido, não vem por acaso: é como se pelo roubo do colar valiosíssimo da Cartier as “oito de Ocean” subjugassem também o caráter inacessível do desejado e glamurizado baile, descrito por elas mesmas como “a festa mais exclusiva dos Estados Unidos”.

Fonte: by [author_name]

Silvio Girotto

Amante de redes sociais, comunicadores instantãneos e de Marketing Digital

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