“Nós” reafirma as virtudes (e referências) do cinema de Jordan Peele

AVISO: Contém spoilers

Desde o anúncio de “Nós”, Jordan Peele vem afirmando e reiterando continuamente à imprensa que o projeto teria propósitos distintos de “Corra!”, sua avassaladora estreia na direção com fortes estocadas ao racismo estrutural dos Estados Unidos. A ação teve lá seu lado lógico: considerando o grande sucesso da produção, seria apenas uma consequência natural que o público criasse toda uma expectativa sobre seu próximo projeto, esperando ver na telona uma espécie de “novo Corra!” – e basta observar a gigantesca inundação de comparações a outros cineastas que Peele recebeu na semana de estreia deste segundo trabalho para entender o nível do problema midiático em mãos.

Mas como toda declaração de fins publicitários em Hollywood, este esforço também tem seu fundo falso. Por mais que as duas produções de fato persigam fins temáticos distintos e em nada se relacionem, é difícil não enxergar ecos de “Corra!” dentro da estrutura de “Nós”, mas não pelas vias da questão racial que muito provavelmente todos achavam estar antecipando. Ele é um paralelo a ser encontrado na inversão de perspectiva do tema maior da opressão, que desta vez foge da dinâmica de enquadrar o oprimido como protagonista para colocá-lo na posição de ameaça – uma medida que, claro, só pode levar o espectador a assumir o ponto de vista do opressor, mesmo este não sendo assumido de fato no longa.

Jordan Peele (ao centro) conversa com o elenco no set

Para Peele, que volta aqui a assinar a autoria do roteiro, esta mudança de posição sem dúvida oferece uma abertura de escopo, uma expansão dos temas de exposição da segregação não anunciada da sociedade que na tela se traduz no imenso jogo de duplos da premissa, que segue os percalços da família Wilson para sobreviver ao ataque de cópias desfiguradas de suas próprias pessoas. O que começa como o típico filme de invasão domiciliar, porém, logo toma a forma de outra história de provocações do diretor, conforme a trama vai deixando mais evidente o caráter oprimido destes “gêmeos malditos” e o quanto seu esforço no fundo passa por uma reivindicação de suas próprias vidas.

É a partir desta condição que Peele passa a destrinchar uma alegoria para o Estados Unidos contemporâneo, mas enquanto este duelo dos Wilson com suas contrapartes aterrorizantes de fato ocupa todo o jogo simbólico principal, é interessante observar como o diretor também dissemina esta narrativa de duplicidade de movimentos ao resto do filme sob um viés de semi-revelação dos gestos e costumes. O maior indicativo deste procedimento é o grande prólogo da história, que mostra as origens da relação de Adelaide (Lupita Nyong’o) com estes “outros” na sua infância: antes do primeiro encontro da protagonista com as criaturas, o diretor se concentra em acompanhar ela junto dos pais pelos corredores do parque de diversões litorâneo, estando atento a toda a ambiguidade entre a violência e o prazer das atrações – a camisa do clipe de “Thriller” de Michael Jackson talvez seja o elemento mais evidente, mas mesmo as reações assustadas da criança à montanha-russa e entusiasmada do pai (Yahya Abdul-Mateen II) à atração “Bate na Toupeira” denotam muito deste desconforto inicial que o longa há de carregar para frente.

Extraido de “Nós” reafirma as virtudes (e referências) do cinema de Jordan Peele

Silvio Girotto

Amante de redes sociais, comunicadores instantãneos e de Marketing Digital

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *