“Estrada Sem Lei” traz olhar sóbrio sobre a trajetória de Bonnie e Clyde

Mortos em uma emboscada policial em 1934, a dupla de foras da lei Bonnie e Clyde criou uma das gangues mais famosas da história dos Estados Unidos. O casal viajava pela América praticando pequenos golpes, como assaltos em postos de gasolina e roubos em bancos. A história do grupo aconteceu durante a Grande Depressão, nos anos 30, quando a América viveu uma grave crise econômica. A história de Bonnie e Clyde rendeu um dos maiores clássicos do cinema americano, filme que ajudou a impulsionar a Nova Hollywood, que talvez tenha sido o mais importante movimento cinematográfico da indústria estadunidense.

Com direção de Arthur Penn, “Bonnie & Clyde: Uma Rajada de Balas” transformou as lendárias figuras históricas em mitos do cinema. Agora, 52 anos depois da obra de 1967, John Lee Hancockconta a história complementar a de Bonnie e Clyde: a de Frank Hamer (Kevin Costner) e Manny Gault (Woody Harrelson), dois policiais contratados por um consórcio de bancos para localizar e eliminar os foras da lei. O interessante é que Hancock faz escolhas um tanto quanto inusitadas, pois em vez de desconstruir o mito de Bonnie e Clyde e mitificar os agentes da lei, ele reafirma os ladrões e desconstrói o heroísmo de seus protagonistas.

Os ladrões são tratados como figuras lendárias desde o começo da projeção. Em “Estrada Sem Lei”, todo o universo do filme parece existir ao redor dos criminosos. Essa mitificação é extremamente bem conduzida ao longo da trama e é feita de maneiras variadas. O fato de Bonnie e Clyde não falarem, por exemplo, é uma delas. Tudo que sabemos sobre os personagens, nós ouvimos por terceiros, seja de quem os defende, seja de quem os quer mortos. Outra escolha interessante é a da forma de filmar esses personagens: Bonnie e Clyde não têm seus rostos exibidos a não ser em sua última aparição no filme. A dupla é quase sempre filmada de longe ou de costas, como se eles sequer pertencessem ao mesmo universo que os protagonistas.

O diretor John Lee Hancock (à esquerda) conversa com o elenco no set

Essa “blindagem” dos criminosos é acompanhada também pela forma como todos os personagens enxergam os ladrões. Se para as forças da lei, Bonnie e Clyde representam uma ameaça ao status quo, para o povo, eles são o símbolo da luta contra o sistema e um exemplo de rebeldia em tempos de crise. É acertada, portanto, a decisão de Hancock de trazer sempre close-ups de personagens defendendo os ladrões de forma veemente e planos abertos com dezenas de seguidores cercando os foras da lei tentando demonstrar algum carinho por eles, mostrando como eles são queridos e inspiradores para o povo. Essa dicotomia no tratamento – afinal, eles são os vilões na perspectiva dos policiais – permite que “Estrada Sem Lei” ainda retrate esse afastamento entre a opinião pública e o estado.

É interessante também que Hancock e seu diretor de fotografia, John Schwartzman, aposte em tantos planos abertos para ressaltar os cenários nos quais as cenas são ambientadas. O uso de uma profundidade de campo grande permite que os personagens sejam filmados sempre diante de grandes horizontes. Quando acompanhamos, por exemplo, um simples trabalhador falando sobre como apoia os atos de Bonnie e Clyde por causa de seu enfrentamento aos bancos, o fato de a câmera mostrar o personagem cercado por um vazio é essencial para que haja a construção imagética da ideia de que aquele sujeito é uma vítima da crise – o que justifica sua admiração por aqueles que fazem o sistema sangrar.

Esse distanciamento entre o povo e os poderosos é uma ferramenta narrativa essencial para as transformações pelas quais “Estrada Sem Lei” passa. Se por um lado temos personagens divididos nos extremos – os que amam e os que odeiam os criminosos –, por outro temos um roteiro que pouco a pouco insere tons de cinza na narrativa e remove qualquer resquício de maniqueísmo da trama. Os heróis são expostos como verdadeiros assassinos, com um passado sanguinolento bem pior do que o dos foras da lei apaixonados. A título de comparação: Bonnie e Clyde mataram em torno de uma dezena de pessoas durante seus anos de atuação, enquanto os policiais contratados para persegui-los têm um passado com mais de 50 mortes na conta.

Extraido de “Estrada Sem Lei” traz olhar sóbrio sobre a trajetória de Bonnie e Clyde

Silvio Girotto

Amante de redes sociais, comunicadores instantãneos e de Marketing Digital

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