“Brightburn” prefere o terror barato a virar o gênero de super-herói de cabeça para baixo

A premissa de “Brightburn – Filho das Trevas” de início intriga pela inversão de procedimento que promove na mitologia do super-herói. Se a concepção do ser poderoso que guarda a sociedade foi popularizada pelos quadrinhos ainda nos anos 30, na forma de uma retomada de princípios essencialistas que trocavam o duro cotidiano do mundo pós-crise de 29 pela promoção de valores, o longa do diretor David Yarovesky usa dos mesmos mecanismos sob a intenção de deturpá-los, trazendo-os à realidade deste fim de anos 10 no qual a sensação de corrupção dos ideais parece perseverar como lei vigente.

É uma narrativa que o filme reconhece e abraça desde seus primeiros minutos, sem nenhuma discrição repetindo a clássica origem do Superman enquanto alienígena super-poderoso que cai numa cidadezinha do interior do Kansas (a Brightburn do título, no caso). As batidas do mito de formação do personagem da DC Comics são assumidas como referencial visual mais óbvio dentro da produção, que em teoria percorre todo este trajeto iconográfico dentro de uma lógica onde os valores puros e responsáveis pela concepção do grande herói nunca chegaram a existir.

O diretor David Yarovesky no set do filme

Esta aplicação supostamente envolve todas as bases deste mito de formação. Seja nos pais (Elizabeth Banks e David Denman) que adotam o bebê caído na Terra por motivos mesquinhos da maternidade e da paternidade ou na própria relação do protagonista Brandon (Jackson A. Dunn) com seu planeta natal – que ao invés de destruído mostra ter enviado o garoto por um motivo acima de tudo colonialista – “Brightburn” brinca constantemente com as noções de um mundo que não merece e, pior, corrompe uma entidade a princípio vinda para nos inspirar o melhor, uma narrativa de descoberta que o roteiro escrito pelos primos Brian e Mark Gunn busca enquadrar pelos ritos de rebeldia da adolescência. Brandon, afinal, é submetido na trama a grande parte das frustrações que acometem a longa gestação do amadurecimento, mas por ser um ser superpoderoso e estar despido dos ideais responsáveis por sedimentar uma visão otimista da sociedade seu caminho para a vilania se torna inevitável.

A ligação em si é interessante porque ela reforça como o mito do herói nutre um caminho de duas vias com a sociedade no qual esse se insere, um tema que os quadrinhos há décadas já exploram e o cinema ainda toca com timidez graças ao caráter intrínseco que o gênero no momento tem com as produções de altíssimo orçamento – de memória, o único que se arriscou enveredar pelo assunto em tempos recentes foi Zack Snyder, em debates extensos sobre deuses e humanos que já encontraram o fim de sua atração dentro do mercado. Não por acaso, a figura da colmeia subexiste entre os acontecimentos, acentuando não apenas a síndrome de não pertencimento de Brandon como extenuando a unidade da cidade enquanto comunidade – o senso de camaradagem entre os pais se perde por completo quando os filhos entram em conflito, por exemplo.

As batidas do mito de formação do Superman são assumidas como referencial visual mais óbvio dentro do filme

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Extraido de “Brightburn” prefere o terror barato a virar o gênero de super-herói de cabeça para baixo

Silvio Girotto

Amante de redes sociais, comunicadores instantãneos e de Marketing Digital

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